O incrível caminho de Cabo Verde até a Copa do Mundo de 2026
por Fernando
Antes da partida entre Espanha e Cabo Verde, é importante relembrar uma das histórias mais fascinantes desse novo formato com 48 seleções da Copa do Mundo de 2026, a chegada de um país insular localizado no Oceano Atlântico na disputa da maior competição de futebol do mundo.
Um pequeno arquipélago no palco principal
Cabo Verde é um pequeno arquipélago de 10 ilhas na costa oeste da África, com pouco mais de meio milhão de habitantes e território mais de 100 vezes menor do que o da Espanha, rival da estreia no Grupo H. Independente desde 1975, o país só passou a disputar competições da Confederação Africana de Futebol a partir de 1982, entrando nas eliminatórias da Copa Africana de Nações em 1992.
A primeira participação na CAN veio apenas em 2013, quando os Tubarões Azuis já mostraram potencial ao alcançarem as quartas de final. Mais recentemente, em 2024, Cabo Verde levantou o troféu da primeira edição da FIFA Series, torneio criado para organizar amistosos de seleções em um único país-sede, sinal de que a seleção já vinha batendo na porta de algo maior.
O novo formato da Copa e a chance inédita
A expansão da Copa do Mundo para 48 seleções em 2026 abriu espaço para um torneio com mais histórias como a cabo-verdiana, junto com estreias de outras equipes como Curaçao, Jordânia e Uzbequistão. Ao mesmo tempo, seleções com poucos mundiais no currículo, como Haiti e Panamá, voltaram ao cenário, e tradicionais como Noruega e Paraguai estão de volta depois de longos hiatos.
Cabo Verde, porém, talvez seja o caso mais emblemático dessa nova configuração, tendo em vista o contexto demográfico e econômico do país, que, assim como o Brasil, fala português, mas que ainda está consolidando suas estruturas esportivas. A estreia logo contra a poderosa Espanha, campeã do mundo em 2010 e dona de um dos campeonatos nacionais mais fortes do planeta, reforça o tamanho do desafio.
Um caminho com cara de milagre esportivo
Nas eliminatórias africanas para a Copa de 2026, reformuladas para acompanhar o aumento de vagas, Cabo Verde protagonizou uma das maiores surpresas do continente. A seleção terminou na liderança do Grupo D, superando Camarões, Líbia, Angola, Ilhas Maurício e Essuatíni, algo impensável alguns anos atrás.
Um episódio simbólico dessa campanha foi o duelo decisivo contra os camaroneses, em que o governo cabo-verdiano precisou investir quase seis vezes o orçamento da federação local para fretar um avião e buscar a seleção nas Ilhas Maurício. Em campo, o esforço foi recompensado com uma vitória por 1 a 0 na cidade da Praia, resultado que se tornou um divisor de águas na caminhada rumo à primeira Copa.
O goleiro Vozinha, um dos líderes desse grupo, destacou o aspecto emocional do feito.
"Ser cabo-verdiano e classificar à Copa do Mundo, para mim, foi a melhor alegria que eu, como ser humano, como cabo-verdiano, podia dar aos meus pais, à minha família e a todo o povo", disse o veterano jogador.
Ídolos, referências e peças-chave
A espinha dorsal da seleção que vai ao Mundial passa obrigatoriamente por Ryan Mendes, maior artilheiro da história de Cabo Verde e também recordista de jogos pela equipe nacional. Ele é o símbolo de uma geração que mescla atletas formados na diáspora com jogadores que cresceram vendo a seleção ainda engatinhar nas competições continentais.
Junto com Mendes, o elenco conta com nomes que atuam em ligas competitivas ao redor do mundo: Logan Costa, zagueiro do Villarreal (Espanha), Sidny Cabral, do Benfica (Portugal), Steven Moreira, do Columbus Crew (Estados Unidos) e Dailon Livramento, do Casa Pia (Portugal). Tendo como base esse grupo espalhado entre diversas ligas, a seleção ganha rodagem internacional sem abrir mão de uma identidade própria.
Para o lateral-direito Wagner Pina, do Trabzonspor (Turquia), a Copa representa algo que ultrapassa os 90 minutos, os gramados e o resultado da estreia.
"A Copa dá outra visibilidade para Cabo Verde no geral, não só como equipe de futebol, mas também como país", afirmou o jogador.
No banco de reservas, quem comanda o projeto é Pedro Leitão Brito, mais conhecido como Bubista, apelido derivado de Boa Vista, ilha onde nasceu. Ex-capitão da seleção como jogador, ele assumiu a equipe em 2020 e vem liderando um elenco majoritariamente formado por atletas nascidos ou criados fora do país, mas que carregam laços familiares com Cabo Verde.
Um exemplo clássico é o zagueiro Roberto Lopes, o Pico, nascido em Dublin, na Irlanda, filho de cabo-verdiano. De forma bem contemporânea, o primeiro contato para ele defender a seleção aconteceu por meio de uma mensagem nas redes sociais, o que mostra como a federação precisou se atualizar e ir atrás da diáspora mundo afora.
Agenda de jogos de Cabo Verde na fase de grupos
Na primeira fase da Copa, Cabo Verde está no Grupo H, ao lado de Espanha, Uruguai e Arábia Saudita. É um grupo que mistura tradição mundial, campeões mundiais e uma seleção asiática habituada a disputar grandes torneios, então a margem de erro dos Tubarões Azuis é praticamente zero.
Confira os jogos de Cabo Verde:
- Cabo Verde x Espanha - 15 de junho (segunda-feira), às 13:00 (Brasília) e 15:00 (Praia);
- Cabo Verde x Uruguai - 21 de junho (domingo), às 19:00 (Brasília) e 21:00 (Praia);
- Cabo Verde x Arábia Saudita - 26 de junho (sexta-feira), às 21:00 (Brasília) e 23:00 (Praia).