Os brasileiros nas Olimpíadas de Inverno Milano Cortina 2026

por Fernando | por Valeria Di Meglio

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De coadjuvantes exóticos a candidatos reais a pódio, o Brasil fugindo dos estereótipos e aquecendo os motores para a disputa nas montanhas de gelo.

Durante muito tempo, a presença brasileira nos Jogos Olímpicos de Inverno foi vista quase como curiosidade folclórica, uma mistura de improviso e teimosia tropical em meio a pistas congeladas. Só que, tendo como base o ciclo até Milano Cortina 2026, isso já não é bem assim, dado que o Brasil chega à sua décima participação consecutiva, com 14 atletas em cinco esportes e, pela primeira vez, com chances bem concretas de medalha.

É um crescimento que não aconteceu da noite para o dia, mas que, junto com o amadurecimento das federações e do Comitê Olímpico do Brasil, mostra que o país não está apenas "participando por participar". A delegação é a maior da história em Jogos de Inverno, superando inclusive Sochi 2014, o que não é pouca coisa para um país que ainda está aprendendo a gostar de neve pela televisão.

A nova cara do time brasileiro

A delegação de 2026 mistura veteranos, jovens promessas e histórias de vida bastante diversas, somando atletas que nasceram ou cresceram em países com tradição na neve, mas escolheram vestir o verde e amarelo. São representantes em esqui alpino, esqui cross-country, snowboard, skeleton e bobsled, mostrando um leque de modalidades que antes parecia inimaginável para o Brasil.

Metade do time faz sua estreia olímpica, o que indica que a renovação não é discurso vazio, e sim um processo que ainda está em andamento. Ao mesmo tempo, alguns nomes retornam para fechar ciclos históricos, como no bobsled, enquanto outros chegam para literalmente mudar o patamar do país em esporte de neve.

Lucas Braathen e o sonho de pódio inédito

Lucas Braathen

Se existe um símbolo dessa mudança de patamar, ele atende por Lucas Pinheiro Braathen, estrela do esqui alpino mundial que passou a competir pelo Brasil em 2024. Vice-líder dos rankings de slalom e slalom gigante, ele soma dez pódios recentes no circuito internacional e vem em uma sequência impressionante de nove provas seguidas terminando entre os cinco primeiros.

Mais do que os números, chama atenção a atitude de Lucas na pista, um jeito showman e irreverente, que combina muito com o imaginário brasileiro de atleta protagonista.

Não é à toa que Lucas Braathen crava: "Não há nada que eu ame mais do que sentir que sou o 'cara' do momento, o 'cara' do show".

É uma daquelas declarações óbvias e, ao mesmo tempo, reveladoras, porque traduz exatamente o que o torcedor quer ver, um brasileiro entrando na neve para vencer, e não só para aparecer na cerimônia de abertura.

​O bobsled de inspiração jamaicana

Se tem uma modalidade que já virou um "personagem" por si só é o bobsled brasileiro, diretamente ligado à figura de Edson Bindilatti. Inspirado lá atrás pela equipe jamaicana, que virou até filme, Edson conduziu o Brasil à primeira participação em 2002 e agora está de volta para sua sexta e última Olimpíada, liderando novamente o trenó nos eventos de 2-man e 4-man.

Ao seu lado, nomes como Rafael Souza, presente em 2018 e 2022, e o retorno de Davidson de Souza (Boka), além de Luis Bacca e do jovem piloto Gustavo Ferreira, que traz experiência dos Jogos da Juventude Lausanne 2020.

Em um dos materiais sobre sua trajetória, Edson resume o sentimento de quem passou a vida inteira empurrando trenó em um país sem neve: ele fala em "legado, liderança e uma vida inteira quebrando barreiras", como é natural de quem se recusa a aceitar que clima define destino esportivo.

O snowboard chega com muitas manobras

No snowboard, o Brasil está de volta ao cenário olímpico, agora com uma cara completamente diferente do passado, focada em Isabel Clark no cross. Em 2026, o país estreia no masculino freestyle com dois atletas no halfpipe, unindo juventude, estilo e, claro, muita manobra e, se tudo der certo, nota alta.

O suíço-brasileiro Pat Burgener chega como principal nome, trazendo na bagagem um bronze da Copa do Mundo em Calgary, que foi o primeiro pódio brasileiro na modalidade. Ao lado dele está Augustinho Teixeira, apontado como uma das maiores revelações do snowboard sul-americano, que passou o ciclo inteiro focado no halfpipe e terminou entre os 30 melhores em 9 das 11 provas válidas para classificação.

Nicole Silveira, um misto de coragem e velocidade

Nicole Silveira

Outra figura central nessa nova fase é Nicole Silveira, do skeleton, modalidade em que o atleta desce de cabeça para frente em um trenó minúsculo a mais de 120 km/h. O Brasil estreou na prova em 2022, e Nicole já transformou essa novidade em resultados concretos, dado que são três pódios em etapas de Copa do Mundo entre 2024 e 2026 e um quarto lugar em Mundial, o melhor resultado brasileiro da história em esportes olímpicos de inverno.

Tendo em vista o que ela já fez, dá para dizer que Nicole não só abre mão do medo, como parece dialogar com ele todo dia na pista. Em entrevistas, a atleta costuma reforçar o quanto acredita que seu caminho inspira outros brasileiros a se aventurar no gelo.

Nicole Silveira resumiu esse espírito da seguinte forma: "A gente vem para mostrar que brasileiro não tem medo de pista rápida, a gente só precisa da chance certa".​

Cross-country com resistência e reconstrução

No esqui cross-country, o Brasil chega à sua sétima participação seguida, o que mostra uma consistência silenciosa, quase teimosa, em uma das modalidades fisicamente mais exigentes dos Jogos de Inverno. O país leva três atletas: Manex Silva no masculino, e Eduarda Ribera e Bruna Moura no feminino, com direito a sprint, provas de 10 km e presença no sprint por equipes.

A história de Bruna e Duda tem um tom muito humano, quase novelesco, já que em Beijing 2022, Bruna ficou de fora por causa de um grave acidente de carro, e Duda entrou em seu lugar de última hora. Agora, as duas chegam juntas, lado a lado, tendo como base um ciclo inteiro de preparação e superação, tentando transformar uma história de trauma em capítulo de recuperação esportiva.

O impacto simbólico dessa geração

Junto com os resultados em si, essa geração olímpica de inverno brasileira carrega um peso simbólico curioso, pois ela ajuda a desmontar a ideia de que o Brasil só sabe jogar futebol na praia e vôlei na areia. Quando um atleta como Braathen vence prova de Copa do Mundo, ou quando Nicole flerta com o pódio em Mundial, o imaginário coletivo vai sendo reescrito, mesmo que lentamente, devagarinho.

Claro, ainda há uma distância gigantesca em relação às potências da neve. Mas, dado que a base competitiva está se ampliando, e que a delegação é recorde e que alguns atletas já entraram na conversa por medalha, dá para dizer que o Brasil deixou de ser mera figuração para se tornar coadjuvante de luxo, aquele que, em um dia perfeito, pode roubar a cena e subir no pódio.